Mais uma vez estou aqui para dividir alguns dos meus rodopiantes pensamentos com vocês. Esse tema me encanta profundamente e acho que existem inúmeras maneiras e exemplos possíveis ao se abordá-lo. O que só comprova minha tese de que as discussões sobre Harry Potter são infinitas, algo que me alegra, pois dará “vida longa e próspera” ao nosso fandom. Esse texto é um daqueles onde exponho muito do que minha mente confusa pensa sobre o mundo e gostaria de saber qual a visão de vocês sobre todas essas questões e se é, apenas a mim, que elas parecem angustiantes.
Boa leitura e não deixem de comentar!
PS: A fanart que usei na postagem vocês encontram no TLC.
Por Paty Moreira
O título deste texto pode parecer estranho, pois os objetos com que exemplifiquei este “poder dominado” são, na verdade, dominadores por natureza, mas neste texto analisarei uma questão que me parece estar intimamente relacionada nas séries “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”: a busca pelo poder. E não apenas a busca em si, mas a forma como somos escravos do poder, como nosso poder é dominado por nossa vontade de dominar. Creio que essa introdução não foi nada clara, mas aos poucos, espero, chegaremos a algum lugar.
Essas relações com o poder que aparecem em ambas as sagas estão ligadas fundamentalmente a dois personagens (excluirei os vilões nesta análise). Em “Harry Potter”, usarei apenas o protagonista, e na saga de Tolkien, falaremos de Tom Bombadil. Ambos são bons, lidam com o poder, mas não se deixam dominar por ele, o oposto da maioria de nós, e talvez por isso, eles dominem.
Tom Bombadil é uma das personagens mais discutidas pelos fãs da obra de Tolkien, pois ele não se encaixa no perfil de nenhum personagem específico da saga, sendo impossível descrevê-lo como Hobbit, Homem, Anão, Elfo, um espírito da natureza, Aulë ou o próprio Eru Ilúvatar. Não entrarei nos motivos que tratam de tal impossibilidade, pois não é o foco da analise, mas indico este artigo para maiores detalhes. O que importa saber é que Tom não é uma criatura classificada na saga e isso é extremamente relevante para compreendê-lo. O alegre Tom também é aquele que toca o Um Anel sem ser influenciado por seu poder, que pode enxergar Frodo quando este usa o anel para ficar invisível, “Ele é” como diz Fruta D’Ouro, mas não domina, pois “As árvores e o capim e todas as coisas que crescem ou vivem neste lugar só pertencem a si mesmas. Tom Bombadil é o Senhor”.
Tolkien criou o oposto do ideal da modernidade - que nos faz ignorar os sentimentos e controlar tudo de forma racional - Tom Bombadil é o desejo do puro conhecimento, ele é o Senhor, tem o poder, mas sabe que cada coisa existe com um propósito particular que não lhe dá o direito de dominar. Ele não é escravo do poder, não se deixa controlar pelo desejo de dominação, é uma alma livre e espirituosa, que tudo conhece e nada tem, e por isso não é afetado pelo anel, uma vez que o “Anel do Poder” para “todos trazer e na escuridão aprisioná-los” precisa de reféns que façam dele poderoso, seres que sejam escravos do desejo de conhecer e dominar. Tom é um aliado do poder do conhecimento e o anel nunca poderia alcançá-lo.
A relação de Tom Bombadil com o poder é clara, Tolkien já disse em cartas que ele é apenas um parêntese na história, indecifrável, no entanto, alguém que nos dá uma lição valiosíssima. J.K. Rowling não falou tão claramente sobre os propósitos de Harry, mas deixou pistas que usarei para tentar expor meu ponto de vista sobre o assunto, lembrando que esta é uma hipótese e não uma certeza quanto aos intentos da autora.
Parece-me que Harry lida com o poder de forma semelhante com a de Tom. O poder a que me refiro em Harry Potter são as Relíquias da Morte, especificamente a Varinha das Varinhas. Harry, assim como Tom, é o Senhor, conquista o direito e a lealdade desses objetos que seriam um sonho para todos nós. Dumbledore deixa bem claro o motivo que faz de Harry o “digno possuidor das Relíquias” e esse motivo, a meu ver, é a forma como Harry lida com o poder, ele é um líder nato e não deseja a liderança (como costuma acontecer com os verdadeiros líderes), espera viver em paz e não está à procura de glórias. Harry domina porque merece e sabe que não é dono de nada.
Quando Rony se impressiona por Harry dizer que não ficará com a varinha, ele simplesmente responde “A varinha não vale a confusão que provoca”. No momento em que está consertando sua varinha antiga, temos mais uma fala do digno dominador: “Eu sei que é poderosa, mas eu era mais feliz com a minha”. O protagonista da saga de Rowling está preocupado com a felicidade e não com o poder, isso o motiva antes de todas as coisas e é o que lhe dá poder, fazendo de Harry alguém tão livre quanto Tom, capaz de se sacrificar pelo próximo e não se deixar escravizar por aquilo que supostamente devemos desejar.
São personagens movidos essencialmente por sentimento, algo que me parece ser o grande aliado da verdadeira liberdade. Em análise aos Contos de Beedle, Dumbledore diz que “os humanos têm um pendor para escolher precisamente as coisas que lhes fazem mal” e que a moral do conto não poderia ser mais clara: “os esforços humanos para evadir ou superar a morte estão sempre fadados ao desapontamento”. A morte é apenas um dos inúmeros conhecimentos que estamos fadados a nunca compreender totalmente e em nossa sede de encontrar a verdade para dominar, escolhemos aquilo que nos faz mal, nos perdemos em conceitos e lógica e não vivemos plenamente.
Vejo uma mensagem muito importante nesses dois personagens, que me faz pensar sobre como somos dominados pelo poder e não conseguimos dominar nada. Temos tanta necessidade de conhecer plenamente, de encontrar respostas e controlar tudo, que perdemos o caminho do verdadeiro poder e conhecimento. Parece que a maioria de nós não consegue entender as escolhas de Tom e Harry, não podemos viver fora dos padrões “racionais”, somos o povo da “Liberdade, Igualdade e Progresso”, presos em conceitos que não explicam a necessidade de desigualdade, as especificidades de cada um e não enxergamos que o progresso não existe como um fim imediato, pois cada indivíduo tem seus próprios valores e sonhos que levam a progressos diferentes, e no meio de tanta busca e racionalidade não entendemos mais o que é liberdade.
Para mim é uma grande lição, não sei se intencional, no caso de Harry, mas sem dúvida no caso de Tom Bombadil, é algo que me faz refletir e me tira muitas noites de sono. Não sei como resolver o problema, não acho que todos podem ser como esses personagens, existe algo na liberdade deles que me escapa a imitação. Sei apenas que o mundo como está hoje é estranho e dominado, que a escravidão existe em nossos intelectos e isso me assusta, pois não vejo solução melhor. Refém do controle é o que somos, mas talvez chegue o dia em que seremos puramente dominadores e aliados como Harry e Tom. Espero, apenas, que esteja no caminho certo para essa conquista.
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domingo, 11 de julho de 2010
sábado, 10 de julho de 2010
Nascimento

Olá, pessoal!
Primeiro, gostaria de agradecer pelos ótimos pensamentos em nossos textos, é um orgulho ter visitantes tão incríveis como vocês e acho que já estava na hora de agradecer.
Mas indo direto ao assunto, a maioria de nossos posts até o momento foram críticos e resolvemos postar algo mais leve para variar um pouco. É com prazer que anunciamos nossa primeira fanfic!
A ideia é que sejam fics em formato oneshot ou algo parecido, não muito longo para que vocês possam acompanhar da mesma forma que fazem com as colunas. Esse primeiro texto talvez seja conhecido de alguns, e foi escrito por uma potteriana muito querida no fandom, Marina Anderi e gostaríamos de agradecê-la pela colaboração.
Espero que vocês gostem da novidade e se houver alguém aí com esse talento incrível que queira dividi-lo conosco, mande suas fanfics para dapenseira@gmail.com. E antes que esqueça, a imagem usada nesta postagem é de Karmypu e vocês encontram no deviantart.
Sem mais delongas, confiram o texto da Marina na extensão!
Nascimento
Marina Anderi
Harry andava de um lado para o outro no corredor do St. Mungus.
- Cara, assim você vai furar o chão! – Disse Rony, sentado em uma cadeira.
- Rony, cala a boca, por favor – Disse Harry.
- Eu estou tentando ajudar, Harry. Senta, bebe uma água aê, relaxa.
- Não dá! Eu estou aqui há horas e nenhum curandeiro veio me falar nada!
Uma mulher de cabelos e olhos igualmente castanhos adentrou no corredor do hospital.
- Ai, Harry, desculpe a demora, é que as coisas no Ministério, pelo menos no meu departamento, estavam cheias – Disse Hermione, abraçando Harry – Como está Ginny?
- Sr. Potter? – Falou uma enfermeira.
- Sim? – Respondeu Harry.
- Nós, do St. Mungus, lamentamos lhe informar que a Sra. Potter morreu.
- Ãh? Que? Deve ter sido um engano, não pode ser!
A enfermeira começou a vasculhar os papéis presos em sua prancheta enquanto Harry se derramava em lágrimas.
- Ah! – Exclamou a enfermeira – Foi um engano mesmo, quem morreu foi a mulher do Sr. Pinnor... Desculpe o incômodo – E saiu do corredor.
- Bom, Mione, acho que a Ginny está bem – Disse Rony. Mione deu-lhe um tapa – Ai! Por que isso?
- Porque uma louca chega e diz que a Ginny morreu, minutos depois diz que foi engano. Meio traumatizante pra fazer brincadeira, neah? – Respondeu ela.
Harry lavou seu rosto a mando de Hermione e voltou a andar de um lado para o outro.
- Iiiiiiiiiiiiii, voltamos a estaca zero – Falou Rony.
Uma hora, dez minutos e cinquenta e sete segundos depois...
- Eu vou explodir! Se eu ficar mais um minuto sem notícias da minha esposa, eu invado o quarto dela! – Avisou Harry.
Nove segundos depois...
- Eu vou invadir o quarto dela! – Anunciou Harry.
- Cara, passaram-se nove segundos, não um minuto. E além do mais, Ginny está tendo um filho seu, não é como se ela tivesse sido atingida por um Sectusempra! – Falou Rony.
- É Harry, O Rony está certo – Disse Hermione – O parto pode demorar, segundo a Sra. Weasley, o parto de Percy durou exatas vinte horas.
- VINTE HORAS? Eu não vou conseguir aguentar vinte horas! Estou aqui há cinco! Eles pelo menos podiam me avisar como Ginny está, de preferência sem mandar uma enfermeira de merda dizer que ela está morta, me matar do coração e depois dizer que foi engano!
- Sr. Potter? – Disse o curandeiro.
- Senta que lá vem história – Sussurrou Rony para Hermione, que sorriu.
Harry se dirigiu até o homem de jaleco branco e disse:
- Diga, doutor.
- Seu filho acabou de nascer. Um lindo e saudável menino. Gostaria de vê-lo?
- CLARO!
A moça da recepção fez um "Shiii", mas Harry nem ligou, saiu correndo pra o quarto em que Ginny estava.
Ela chegou lá ofegante pela corrida.
- Hey, calma, Harry Relaxa, conta até dez: um, dois, três... Agora continua que eu to com preguiça – Disse Ginny.
Harry sorriu, sua respiração voltando ao normal.
Ginny estava deitada na cama, os fios de cabelos ruivos grudados em seu corpo por causa do suor. "Linda" pensou Harry "como sempre". Nos braços ela tinha um cobertor azul, onde um bebê estava acomodado.
- Vai ficar com essa cara de bobo ou vai vir conhecer seu filho? – Perguntou Ginny, tirando Harry de seus devaneios.
Ele se aproximou em passos lentos até a esposa. O bebê no colo dela era ruivinho.
- Ele não tem nada a ver comigo – Comentou.
- Verdade – O bebê abriu os olhos – Olá, James. Diga oi para o papai.
Os olhos castanhos de James foram até seu pai.
- Eu posso... Pegar ele?
- Que pergunta, harry. Claro que pode!
Harry pegou seu filho no colo. A sensação foi de muita felicidade.
- Eu gostaria de mudar o nome dele – Avisou.
- Sinto muito, acho que ele já atende por esse nome – Argumentou Ginny.
- Não, só vou acrescentar. James Sirius, o que acha?
- Bonito... James Sirius Potter, bem-vindo a família.
Ficaram paparicando o pequeno James, até que a enfermeira chegou e disse que Harry teria de sair do quarto em cinco minutos, pois Ginny e o bebê precisavam descansar.
- Obrigado – Disse Harry.
- Pelo que? – Falou Ginny.
- Por me dar a família que eu nunca tive. Eu te amo, muito.
- Eu também.
Deram um beijo profundo, só pararam por causa de James.
- Quando você sai do resguardo, mesmo? – Perguntou Harry.
Ginny riu.
- Sinto muito, quarenta dias.
- Pena... Bom, então eu vou ligar pra Cho Chang!
- Harry. James. Potter. Sou casada com você, mas ainda tenho muito irmãos...
- Acho que foi isso que me atraiu em você, eu amo perigo.
Dito isso, Harry saiu correndo do quarto. Uma coisa que aprendeu sobre sua esposa em seus anos de casamento, foi que com Ginny, não se brinca.
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Paty Moreira
terça-feira, 6 de julho de 2010
Lia Wyler e a Tradução de Harry Potter
Os cinco membros da equipe se encontravam bastante ocupados com faculdade ou coisas da vida pessoal, mas agora que alguns estão entrando de férias, a frequência de posts voltará ao normal. Estamos de volta! Dessa vez, trago um texto sobre as traduções de HP, ou melhor, sobre a tradutora de HP e sua genialidade. Na coluna, falo de Lia como a típica "Lia-lover" que sou, porém tentando manter um olhar crítico (ainda que falhado, pois meu propósito não foi analisar a tradução, e sim abordar justamente as qualidades de Wyler como tradutora) para também dizer o que gostaria que fosse melhorado. Espero comentários de todos!
Uma das mais antigas polêmicas que giram em torno da série Harry Potter, pelo menos entre os fãs brasileiros, é a tradução feita por Lia Wyler: Enquanto muitos odeiam, poucos amam (e devo dizer que estou incluída neste grupo) e outra parcela se encontra indiferente.
Em vez de listar cada falha e acerto, porém, decidi "inovar" um pouquinho e fugir ao padrão dos textos que criticam as versões brasileiras dos livros, e falar porque aprecio tanto estas, falando do bom e do ruim como conseqüencia. Pois bem. Como alguns notaram, pela coluna anterior, gosto de utilizar definições exatas de dicionários, e, dessa vez, não será diferente: O texto será introduzido com o significado de tradução, para evitar possíveis equívocos decorrentes da ignorância provinda de alguns:
"Tradução é uma atividade que abrange a interpretação do significado de um texto em uma língua — o texto fonte — e a produção de um novo texto em outra língua mas que exprima o texto original da forma mais exata possível na língua destino; O texto resultante também se chama tradução."
Conforme destacado em negrito acima, "mas que exprima o texto original da forma mais exata possível", portanto isso nos leva a concluir que, inevitavelmente, ocorre uma adaptação, afinal o texto deve estar o mais parecido possível com o original e há centenas de jogos de palavras e piadas que, traduzidos da maneira literal, perdem o sentido. No caso de palavras inventadas, como "Muggle", os nomes das quatro casas de Hogwarts, "Quidditch" e - muitos - outros, digo o mesmo. Convenhamos que é muito mais interessante ler os "abrasileiramentos" de Lia do que as palavras que, apesar de soarem interessantes em países de língua inglesa, seriam incompreensíveis para os leitores daqui!
Se procurarmos um pouco sobre a tradução de HP de cada país, veremos que apenas a nossa possui adaptações como "Quadribol", "Grifinória", "Lufa-Lufa", "Sonserina" e "Corvinal", e mesmo que alguns fãs as odeiem do fundo da alma, optando até mesmo por utilizar os termos originais, eu as defendo e faço questão de usá-las, simplesmente pela genialidade e cuidado empregados por Wyler na hora de escolher cada um, e singularidade e riqueza acrescentadas à obra traduzida. "Bichento" (de "Crookshanks") é um excelente, e talvez o maior, exemplo disso, uma vez vemos traços da cultura brasileira na palavra - que é usada em determinada região do país para designar pessoas com pernas tortas -.
Na minha opinião, entre os pontos fortes de Lia estão Bichento (motivo já citado) e as casas Sonserina - talvez uma mistura de sonso e ferino - e Lufa-lufa, cuja definição no dicionário consta "agitação", característica vista em muitos membros da casa. Os nomes dos Marotos (e também o próprio nome do grupo, naturalmente), em especial Rabicho, também merecem destaque. Também é válido mencionar que o original, "Wormtail", é uma junção das palavras "worm" (verme) e "tail" (cauda). Para traduzir uma palavra com essa, é necessário saber o significado de ambas, para, enfim, juntá-las inteligentemente e criar apenas uma. Também é o caso de Grampo (grip e hook, que formam Griphook) e as "buck" e "beak" do Bicuço inglês, Buckbeak. Negativamente, eu ressalto a substituição dos "us" por "o", como em Albus/Alvo, Severus/Severo e Remus/Remo, além da permanência de Sirius. Segundo a lógica, seria coerente termos um Sírio, e, mesmo que prefira os nomes originais, sou a favor de um padrão.
Uma das críticas mais fortes por parte dos fãs vem do Apagueiro/Desiluminador, e eu diria que essa é a única que de fato me irrita, pelo simples motivo de que, nos livros em inglês, realmente temos dois termos distintos. E a explicação é bem óbvia, na verdade: No primeiro livro da série, não sabemos o nome do objeto por estarmos apenas observando a cena (pois Harry ainda é um bebê e nem se encontra presente na mesma), e ele é denominado "put-outer" (nosso "apagueiro"). Já no sétimo e final, quando Rony o recebe, lemos no testamento de Dumbledore "Deluminator". É possível notar, também, que no primeiro livro lemos "put-outer" com letras minúsculas e entre aspas, o que já indica que não é um nome "oficial".
E quanto aos títulos dos livros? Muitos têm problemas com os do segundo e do sexto (enquanto eu prefiro apreciar o do sétimo), que traduzidos literalmente seriam "A Câmara dos Segredos" e "O Príncipe Mestiço". Não sei se sou a única a recordar, mas, em Câmara Secreta, em certas passagens, a câmara é referida como Câmara dos Segredos, enquanto, em Enigma do Príncipe, o príncipe é conhecido como Príncipe Mestiço. E quem disse que não fazem sentido, os títulos?! A câmara podia guardar segredos, mas não deixa de ser secreta! E, afinal de contas, o tal príncipe não é um enigma? Ninguém sabia sua verdadeira identidade. Então, contrariando a grande massa, afirmo com toda a certeza que, em português, prefiro os títulos "Wylerianos".
Talvez eu tenha acabado de ressuscitar uma polêmica antiga, não sei. Deixei passar muita coisa, como o James/Tiago e nosso "Jerry" Potter do sexto livro, e até mesmo variações de nomes de livro para livro, como Cátia/Katie e Quim/Kingsley, trocadilhos e jogos de palavras e erros em geral (os quais, em sua maioria, atribuo mais à edição dos livros do que a própria tradutora) mas suponho que minha intenção tenha ficado bem clara: Um texto falando sobre a genialidade de Lia Wyler com poucos exemplos, buscando convencer alguns de que suas traduções são coerentes e interessantes. E, para os que argumentam com o velho "isso é tão 'nada a ver'", eu só digo uma palavra: Pesquise.
ATUALIZADO: Enviamos mais e-mails a Lia Wyler, e ela nos esclareceu algumas dúvidas, que estão logo abaixo!
> Sirius ou Sírio? "A rigor todos os nomes latinos sofreriam a alteração us> o, comum na língua portuguesa. Muitos leitores raclamaram e a editora resolveu atendê-los pela metade. Sírius, no entanto, é o nome de uma estrela brilhante conhecida por esse nome em português. Fiquei na dúvida, porque já alterara os anteriores, mas decidi por mantê-lo. "
> Tom Riddle e Jerry Potter? "Jerry foi erro grosseiro de digitação e não devia ter sucitado nenhuma polêmica."
> Uma possível explicação para críticas negativas? "Um outro fator que contribuiu para certa confusão foi os leitores paulistas que sabem muito ou algum inglês terem lido a obra em inglês americano, desconhecendo que essa edição sofreu várias alterações para tornar a obra mais inteligível nos Estados Unidos. A propósito os britânicos se vingaram dizendo que o título A pedra Filosofal na América foi trocado para The Sorcerer´'s Stone, porque nos Estados Unidos não há filósofos)."
ATUALIZADO 2: O membro da equipe Daniel, que cursa Letras, foi considerado mais apto a pensar e enviar mais algumas dúvidas a Lia. Seguem as perguntas e respostas:
Daniel: Em Cálice de Fogo, no episódio da terceira tarefa do Torneio Tribruxo, a tradução brasileira traz uma resolução diferente ao enigma da esfinge que protege a Taça-prêmio: ararambóia. Foi a melhor opção pra nossa língua? O tradutor pode então mudar um enigma? Por que não 'aranha'?
Lia: Às vezes em tradução não se leva em conta apenas o trecho a ser traduzido,
mas o que veio antes e o que vem depois. Uma vez que fui obrigada a mudar o enigma – consulte a p. 500 da edição da Rocco – fui obrigada a mudar igualmente a solução.
Não sei como os meus colegas lidaram com o enigma em inglês que fazia alusão
a um espião. Não posso traduzir a palavra “spy” que inicia o enigma para ter
como resultado “spider”, logo, mudo o enigma. Ararambóia é algo que ninguém
beijaria – veja o significado no dicionário. O importante não é o continente, mas o conteúdo, no caso o fato descrito -- Harry Potter foi capaz de decifrar o enigma proposto pela Esfinge.
Daniel: Como J.K Rowling auxiliava nas traduções? Ela certamente tem grande conhecimento na área, pela sua formação, e mesmo no português por ter lecionado em Portugal; mas ela dava dicas como alguma bibliografia para as etimologias na onomástica e topografia, por exemplo? O trabalho de pesquisa em relação às referências clássicas é difícil?
Lia: Ela não me auxiliava nas traduções, mas no início, quando lhe pedi permissão para traduzir os significados recebi uma longa lista de nomes perguntando qual a equivalência que lhes daria. A autora aprovou o meu currículo e as minhas respostas. A partir do terceiro ou quarto volume apareceu na Internet um site que respondia às dúvidas de tradutores e leitores dando a etimologia dos termos usados por J.K. Rowling, mas por questão de direitos autorais foi retirado do ar. A queixa da falta de auxílio aos tradutores é mundial e tivemos ocasião de discutir isso na reunião que a UNESCO organizou em Paris para os que contribuíram para o sucesso da saga. A pesquisa clássica não foi difícil, cheguei mesmo a traduzir um texto de Ésquilo. Há amplo material sobre os clássicos em todos os idiomas.
Daniel: A variação linguística dos falares mais “populares” ou “caipiras” como o de Hagrid foi transmitida?
Lia: O falar de Hagrid não foi traduzido por decisão da tradutora e da editora. A
razão? Que falar o Hagrid deveria usar? O do favelado carioca, o do caipira paulista ou mineiro, o do nordestino, o do marginal? Isso seria um desvirtuamento do personagem que em vez de ser um “rústico” inglês entraria em crise existencial falaria um patuá alheio ao seu ambiente.
Daniel: O trabalho de revisão na editora deveria ser mais cuidadoso, no caso de erros de digitação? Até onde a ortografia gramaticalmente à risca é culpa do tradutor?
Lia: Não sei se entendi sua pergunta, mas vou responder o que entendi. Realmente deveria ser mais cuidadoso e isso seria possível se as editoras recebessem o material com antecedência e não fossem pressionadas a lançar os livros da série na mesma data – ou quase -- no mundo inteiro. A ortografia e a correção gramatical são responsabilidade dos revisores que trabalham na editora.
Daniel: Uma questão frequentemente levantada é a consulta de variadas traduções (em outros idiomas) para achar a melhor saída em algum dilema. Na literatura contemporânea isso também ocorre? Com HP você manteve contato com mais tradutores?
Lia: Os tradutores da série Harry Potter mantiveram contado através de uma lista de discussão reservada, mas não interferiam nas escolhas feitas pelos indivíduos, uma vez que as premissas que adotaram diferiam de país para país.
ATUALIZADO 3: A Paty selecionou mais dúvidas, algumas das quais surgidas nos comentários deste post, e hoje Lia respondeu ao e-mail. As perguntas e respostas se encontram abaixo, no mesmo esquema que a atualização anterior:
Patrícia: Foi colocado por alguns comentaristas que os nomes "Uón Uón" e
"Moliuóli" não exprimem o exato significado das expressões em inglês, sendo
uma tradução mais sonoro. A meu ver são palavras que transmitem um valor ao
contexto em que estão inseridas, causando vergonha em Rony e Molly Weasley,
no caso. Imagino que estas traduções sejam muito difíceis de realizar, pois
estão ligadas aos trocadilhos que J.K. Rowling espalha por toda a série,
como você optou por essas escolhas?
Lia: Quando um tradutor esgota todas as possibilidades de traduzir os jogos de
palavras ele precisa manter a intenção óbvia do autor. No caso que você cita, ressalto o ridículo dos apelidos carinhosos que só não são ridículos para os envolvidos. A família e os amigos se absteem de repeti-los. Daí o recurso à tradução sonora como fiz em outros trechos. No caso do rock-roque por exemplo.
Não são opções fáceis e o tempo é muito curto. Às vezes me ocorrem no dia seguinte quando acordo. Claro que recorro ao acervo de informações em inglês e português que acumulei fora da escola durante a vida.
Patrícia: Em discussões sobre traduções, alguns dos argumentos mais usados questionando o trabalho feito de Harry Potter são a tradução de Plataforma nove e meio e o título do sexto livro da série. Acredito serem mudanças aplicadas por uma questão cultural e que em nada afeta a trama da saga, você
poderia nos explicar um pouco sobre estas escolhas?
Lia: O caso da Plataforma 9 ½ se enquadra no argumento que usei acima. A intenção
óbvia aí era numerar uma plataforma intermediária que só existe para um
bruxo, e só pode ser inteiramente entendida se pensarmos em uma criança de
9-12 anos para quem foi escrito o livro. De 9 a 12 anos uma criança ainda
não cristalizou o conhecimento de frações, e tampouco usa “quarto” na
acepção que é entendida e usada pela criança inglesa. Foi portanto uma
tradução cultural. Veja quantos significados você própria – não sei que
idade tem – conhece para a palavra “quarto”. Expliquei isso há 10 anos
quando o primeiro volume foi lançado, mas os leitores continuam a discordar
da minha opção. Cada cabeça uma sentença, certo?
Quanto ao título do sexto livro ele foi escolhido pela própria Rowling entre
três opções que os tradutores apresentaram. Aparentemente ela concordou
comigo que a identidade do tal príncipe permeava toda a trama, portanto, era
o grande enigma a ser decifrado.
A palavra “bastardo”, que no Brasil só era usada historicamente, não se
aplica na sociedade contemporânea. Etnicamente mestiços somos todos nós
brasileiros. Quanto à palavra mestiço aplicada aos os impuros de sangue,
acho que nem vale a pena discutir.
Patrícia: A escolha de Servolo substituindo Marvolo serviu perfeitamente
para manter o jogo de palavras, mas existiu algum outro motivo para esta
escolha? E em relação a tradução de "Kreacher" para Monstro, como aconteceu?
Lia: Os tradutores do mundo inteiro – 68 – tiveram que mudar o nome do meio do
bruxo. Escolhi Márvolo [Servolo]. Quanto a Kreacher que foneticamente pode ser
entendido como “creature”. Eu podia escolher fera, bicho, monstro que é o
caso dele em minha opinião (tradutor também tem preferências). É claro que
você pode pensar como o Dumbledore e justificar a revolta do Monstro, mas eu
não sou personagem...
Patrícia: E por fim, o assunto mais recorrente na discussão foi a
desvalorização da nossa língua, que faz com que muitos fãs brasileiros não
enxerguem com bons olhos a tradução nacional, pois valorizam muito o idioma
inglês. Como você vê esta questão?
Lia: Veja a desvalorização com muita tristeza. Um mundo globalizado para mim
significa que os produtos culturas de cada país são apreciados e divulgados
pelas potências hegemônicas tal como são. Não significa pasteurização. Eu
entendo que o indivíduo colonizado ache a cultura hegemônica mais atraente e
queira a ela pertencer, mas acho isso uma relação muito parecida com a do
torturador e do torturado. Você faz o jogo do dominador, abre mão do que
pensa, mas jamais será considerado um igual.
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quarta-feira, 23 de junho de 2010
As páginas enfeitiçadas que encontrei em Harry Potter

Não sei se vocês conhecem o livro A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Zafón, autor espanhol e finalista de prêmios literários na Espanha. Ganhei este livro de presente de aniversário no ano passado e, mesmo assim, ainda não o li por completo. Isto porque eu tinha outros livros na fila de leitura e também pela faculdade, que, definitivamente, reduz bastante meu tempo livre.
Em linhas gerais, o livro conta a história de um garoto, Daniel Sempere, cujo pai é dono de um sebo, loja de livros usados. O pai leva Daniel até um lugar pouco conhecido, O Cemitério dos Livros Esquecidos, onde livros antigos, raros e pouco conhecidos estão guardados, protegidos. Daniel é convidado a escolher um livro, qualquer um, dentre todos os que estão nas muitas prateleiras do lugar e, por coincidência ou destino, ele escolhe "A Sombra do Vento". O livro fascina-o e Daniel sente-se motivado a conhecer a obra completa do autor. A partir daí, o rumo de sua vida será mudado e o garoto será arrastado para uma teia de segredos e intrigas envolvendo Julián Carax, desconhecido autor do livro.
Enfim, esta semana eu comecei a lê-lo com o intuito de acabá-lo no começo das férias. E, mesmo com apenas 29 páginas lidas, deparei-me com três trechos que expressam tão bem aquilo que sinto pela saga Potter. Como a história é sobre um livro que fascinou um garoto, vejo que estas partes caíram como uma luva para minha relação com Harry Potter. Os três trechos estão transcritos logo abaixo; se, no prosseguir da leitura de A Sombra do Vento, eu me identificar com outros pontos, compartilharei com vocês.
Daniel Sempere: "Penetrei num mundo de imagens e emoções que jamais havia conhecido. Personagens que pareciam tão reais como o ar que respiramos arrastaram-me para um túnel de aventura e mistério do qual eu não podia escapar. Página por página, deixei-me levar pelo sortilégio da história e seu mundo, até que o hálito do amanhecer acariciou a minha janela, e meus olhos cansados deslizaram pela última página. O sono e a fadiga queriam me derrubar, mas eu resistia a entregar-me. Não queria perder o encantamento da história nem dizer ainda adeus aos seus personagens".
Clara Barceló (a personagem é cega, mas alguém lia para ela): "Eu não conhecia o prazer de ler, de explorar portas que se abrem na nossa alma, de abandonar-se à imaginação, à beleza e ao mistério da ficção e da linguagem. Tudo isso para mim começou com aquele livro. Este é um mundo de sombras, Daniel, e a magia é um bem escasso. Aquele livro me ensinou que ler poderia me fazer viver mais e mais intensamente, que poderia devolver-me a visão que eu tinha perdido. Só por isso, aquele livro mudou a minha vida".
Daniel Sempere: "Certa ocasião, ouvi um cliente habitual da livraria do meu pai comentar que poucas coisas marcam tanto um leitor como o primeiro livro que realmente abre caminho ao seu coração. As primeiras imagens, o eco dessas palavras que pensamos ter deixado para trás, nos acompanham por toda a vida e esculpem um palácio em nossa memória ao qual, mais cedo ou mais tarde, - não importa os livros que leiamos, os mundos que descubramos, o quanto aprendamos ou nos esqueçamos - iremos retornar. Para mim, essas páginas enfeitiçadas serão sempre as que encontrei entre os corredores do Cemitério dos Livros Esquecidos"; no meu caso, as que encontrei em Harry Potter.
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Citações,
Flávio Jr.,
Livros
terça-feira, 22 de junho de 2010
Seção Fanarts: o toque singular do artista
Com esta postagem, damos início à nossa Seção de Fanarts. Convidamos a Nathália Destro para fazer algumas ilustrações para o Da Penseira e ela aceitou de bom grado! Muito obrigado, Nah! Devo revelar que ela está trabalhando em uma nova ilustração para o banner do blog... Aguardem! Se há algo que me encanta nas fanarts, em geral, é a capacidade que o artista tem de colocar o seu toque pessoal no desenho; de, ao mesmo tempo que representa algo que todos os fãs já imaginaram, fazer com que sua ilustração seja diferente das demais. A interpretação do artista é algo a ser observado, pois é singular.
Se você também tem talento para desenhar, envie um e-mail para o dapenseira@gmail.com com uma ou duas fanarts da série Harry Potter de sua autoria e seja um colaborador do blog!
Na extensão da notícia, confira duas ilustrações: uma da irreverente Luna Lovegood e outra dos amáveis Rony e Hermione. Clique nas imagens para vê-las em tamanho maior.
A imagem do topo, Artist in His Studio, é um desenho de Philip Guston (1913-1980).
Di-lua, com seus habituais adornos exóticos.
Provavelmente está tentando espantar alguns zonzóbulos.
Material: grafitte. Colorido digitalmente
Personagens: Luna Lovegood
Rony e Hermione ainda crianças,
em algum momento inexistente no Salão Comunal da Grifinória.
Material: grafitte. Colorido digitalmente
Personagens: Rony e Hermione
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Flávio Jr.,
Nathália Destro
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O Círculo Temporal Potteriano e a Predestinação Ilusória

Ah, o tempo! Como é fascinante e encantador! Durante certa madrugada insone, estava eu no twitter, quando o destino (ou uma escolha casual) fez minha caríssima Carol postar uma dúvida sobre o tempo e madrugada afora fomos nós discutindo os mistérios temporais... E cá estou eu para tentar desenvolver uma análise do tempo potteriano e de algumas de suas implicações. Reservem algum tempo para ler e compartilhar seus pensamentos. Apreciem.
A propósito, adicionei um parágrafo ao texto para esclarecer alguns pontos pendentes.
O que é tempo? Se há uma resposta, ela é inerente à racionalidade de que somente os seres humanos são dotados, uma vez que se relaciona com a percepção humana das sucessivas mudanças do espaço. Observamos o sol, as fases da lua, os períodos de crescimento das plantas e de ocorrência de diversos fenômenos naturais, determinamos estações do ano, criamos calendários e relógios... Tudo isso para tentar entender, medir, controlar o tempo e adequá-lo às nossas necessidades. E não é simples chegar a uma possível definição. Em certa versão do Aurélio, define-se o tempo como “um meio contínuo e indefinido no qual os acontecimentos parecem suceder-se em momentos irreversíveis” – note-se que mesmo a definição do dicionário julga-o indefinido. Certamente que se trata de um dicionário trouxa... A bruxidade desenvolveu um peculiar instrumento que torna o tempo reversível: o vira-tempo. O objeto curioso interfere nesse intrigante e enigmático meio que é o tempo. Talvez não seja impróprio incluí-lo na categoria dos mistérios mais profundos de que trata a primeira das Leis Fundamentais da Magia de Adalberto Waffling, ainda considerando a existência de uma seção no Departamento de Mistérios que se ocupa com a manipulação e o estudo do tempo. Proponho-me, a partir destas considerações sobre o tempo, a analisar a forma como o enxergo, a forma como é tratado em Harry Potter – mais precisamente em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban – e o motivo por que acredito que seja tratado dessa forma. Vejamos.
Imaginemos, inicialmente, o tempo como uma linha reta: estende-se indefinidamente em, a princípio, apenas um sentido. Em seguida, munidos de um vira-tempo, suponhamos uma viagem temporal ao passado, isto é, uma retrocessão – em sentido, logicamente, inverso – a certo ponto. A partir do momento em que qualquer mudança é feita no passado, surge um ramo secundário daquela linha reta inicial – exatamente no ponto-destino – que se desenvolve de acordo com os desdobramentos das interferências que a viagem temporal provocou. Talvez o segmento da linha reta original posterior ao ponto-destino em que se originou o novo ramo continue existindo noutra dimensão, embora já não seja possível retornar a esse segmento. De qualquer forma, esta visão aborda uma noção de linearidade temporal, em que a consequência de uma viagem ao passado seja necessariamente o surgimento de um novo ramo. Esta concepção de funcionamento do tempo não inviabiliza o efeito causado pelas escolhas que podemos fazer, isto é, não inviabiliza o livre-arbítrio pleno e determinante e está de acordo – presumo – com a ideia de destino maleável presente nas obras de J. K. Rowling.
Em Harry Potter, por outro lado, quando Harry e Hermione têm de regressar no tempo para salvar “mais de uma vida inocente”, os eventos já haviam ocorrido e/ou já estavam em curso devido à interferência simultânea dos mesmos. Bicuço já havia sido salvo, embora não o tivessem percebido, e Sirius já estava escapando, embora ainda não soubessem. Essa concomitância de eventos pressupõe a concepção circular e infinita do tempo, isto é, os eventos ocorrem simultaneamente – as “versões” de Harry e Hermione anteriores e posteriores à viagem coexistem e interagem entre si – e teriam necessariamente de repetir-se para todo o sempre, considerando a brilhante resposta da corvinal Luna Lovegood: “um círculo não tem princípio” – nem fim. Essa concepção também alude necessariamente à existência de dimensões múltiplas: se não houvesse tais dimensões, seria impossível que a sequência temporal tivesse continuidade e os viajantes ficariam aprisionados no círculo sem fim; cada nova repetição deve ocorrer em uma dimensão distinta, infinitamente. A maneira como J. K. Rowling desenvolveu a estrutura do tempo dá margem à teoria de que os eventos são determinados previamente, de que há um destino predefinido, de que não existe alvedrio e de que as escolhas sempre convergirão para consequências predeterminadas. Isso seria assaz contraditório, desdiria as sábias palavras de Dumbledore acerca das escolhas e de como revelam quem somos e faria da adivinhação um dos campos mais precisos da magia.Na realidade, Bicuço nunca fora morto, Harry sempre fora salvo por seu próprio patrono, justamente porque a viagem causa uma distorção na estrutura do tempo, produzindo um círculo e tornando inexistentes os eventos que poderiam ter ocorrido, se a viagem não fosse realizada. Temos a impressão, devido à simultaneidade dos eventos, de que versões de Harry e Hermione provenientes de outra dimensão precisaram ter feito a viagem anteriormente para que, por exemplo, Harry fosse salvo. Isso não acontece, a meu ver. A viagem ocorre em uma mesma dimensão com “versões” de Harry e Hermione que se distinguem pela consciência dos acontecimentos, isto é, as versões anteriores não sabem o que houve, não sabem quem foi o responsável pelos salvamentos; já as versões posteriores (e definitivas para esta dimensão) têm consciência de que foram os responsáveis por tudo. As repetições seguintes da viagem é que devem suceder em outras dimensões. A iniciativa de empreender a viagem no tempo e a distorção estrutural por ela causada provocam a inexistência de quaisquer eventos ocorridos sem a interferência dos viajantes, de modo que não é possível determinar o início das ações e isto é o que torna o tema complexo deveras.
A compreensão linear do tempo é mais coerente em sua teoria, visto que explica com mais propriedade sua possível lógica de funcionamento. Contudo, no desenvolvimento de uma história planejada, é quase impossível administrar a formação de um ramo inteiramente novo, em que os desdobramentos tornar-se-iam absoluta e imprevisivelmente diferentes dos “originais”. Seria incabível conceber a linearidade do tempo sem necessariamente recorrer a explicações complexas e inconvenientes. A escolha da acepção circular torna, a meu ver, a história muito mais verossímil, palpável e até mesmo instigante, disponibilizando um leque interessantíssimo de possibilidades de explicação e de teorias diversas.
Vale ressaltar, portanto, que o tempo em Harry Potter não pressupõe um falso livre-arbítrio, não nega o poder das escolhas nem torna imutáveis os acontecimentos. Como Lílian trocou a vida do filho pela própria, como o menino que sobreviveu preferiu pertencer a Grifinória, como Harry e Rony resolveram ir à procura de Hermione no banheiro feminino, como Flamel concordou em destruir a pedra filosofal e viver a grande aventura seguinte, como O Eleito escolheu voltar à vida e enfrentar Voldemort, somos senhores do nosso próprio destino e não há maldição imperdoável, profecia ou folha de chá mais poderosa que a nossa esplêndida e intrínseca capacidade de escolher e, mais do que isso, de discernir a escolha certa.
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Luan Côrtes
domingo, 20 de junho de 2010
Pottermaníaco ou Potteriano?

Olá! Assim como Luan, também fui convidada pelos amigos Flávio e Paty a postar aqui. Aceitei logo, pois o propósito do blog me atraiu de imediato, e eu não poderia recusar a chance de deixar os frascos com meus pensamentos à disposição de todos que quiserem mergulhar em nossa penseira!
Adianto logo que o texto (não muito extenso) que virá a seguir visa apenas lançar a idéia, assim cabendo ao leitor refletir sobre ele. Abordarei os termos "pottermaníaco" e "potteriano", buscando chegar a uma conclusão sobre o correto para referências a fãs de HP.
Sem mais delongas, boa leitura a todos. Aguardo seus comentários!
Você é um pottermaníaco ou um potteriano? Com certeza, em algum momento na vida, um fã de HP já se autodenominou com ambos os termos, às vezes por distração, às vezes por não saber qual o "correto", às vezes por os julgar sinônimos.
Segundo Houaiss, os significados de mania e maníaco são:
Mania: s.f. Hábito estranho, ridículo / Gosto levado ao extremo / Pscicopatol. Estado de superexcitação do psiquismo, caracterizado por exaltação do temperamento e desencadeamento de impulsos instintivos e afetivos / Fig. Mau costume, esquisitice".
Maníaco adj. Relativo a mania: delírio maníaco / -S.m. Indivíduo possuído de uma uma mania".
Já o sufixo -ano, com sua variante –iano, "tem um significado básico de “proveniência, origem”: doces serranos, autores italianos, monges tibetanos. Com o tempo, passou a indicar também a proveniência de uma idéia, a partir do nome de um autor ou de um movimento intelectual: sonetos camonianos, ideal republicano, igreja anglicana".
Agora, leitor, pense comigo: Harry Potter é uma série que, durante todo esse tempo, vem conquistando e trazendo cada vez mais fãs, que nos ensinou diversos valores, entrete, nos proporciona diversão e momentos de reflexão, nos dá amigos, e mais uma lista quilométrica de benefícios trazidos, que não escreverei aqui por não ser meu foco no momento (além de ser um tremendo clichê, diga-se de passagem). Um fã, ao afirmar que é fã da história de J.K. Rowling, fala com o orgulho e o sentimento dignos de algo que sempre fez parte de você; como se fosse algo que vem com você desde seu nascimento, uma característica sua.
Podemos dizer que "pottermaníaco" é uma denominação pejorativa, pois somente o fato de HP ser uma mania invalida todas as características da saga citadas acima. Sejamos sinceros, nada mais apropriado do que o sufixo -iano para demonstrar isso, uma vez que "potteriano" reflete algo intrínseco à pessoa! Não somos maníacos descontrolados e viciados em algo qualquer e prejudicial (exceto em casos de fanatismo exagerado, o que é outra história; afinal, o que nesse mundo não é prejudicial, se em excesso?!), somos potterianos!
Talvez todos tenhamos sido pottermaníacos, outrora, mas agora, felizmente, grande parte dos pottermaníacos de ontem constitui o fandom potteriano (e tão positivamente influenciado por HP, que esta é a origem do termo) de hoje. Você concorda com a distinção de termos?
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